Documentação Técnica

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* Engenharia de Dragagem, Sinalização Náutica, Batimetria, Projetos de Canais Navegáveis, Meio Ambiente, Cartas Náuticas, Software de Navegação, Topografia Básica e outros assuntos técnicos.

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sábado, 11 de agosto de 2012

Veleiros - Compreendendo o vento aparente

Sergio Caetano*

Tenho certeza de que você já ouviu essa expressão antes. Sabendo ou não o que ele é, todos os velejadores se deparam com o tal "vento aparente". Um conceito bastante simples, ele é a combinação de dois ventos: o vento produzido pela natureza (vento real) e o vento gerado pelo movimento do barco. Ou seja, é o vento que sentimos quando estamos em movimento. Tudo a bordo — a fumaça do cigarro, as tirinhas "telltales", as birutas, as bandeiras — mostra a direção do vento aparente.

Vento real é o vento que sopra para uma pessoa parada, o vento gerado pelo nosso movimento chamaremos aqui de vento induzido. A soma vetorial desses dois ventos é o vento aparente.

Vamos imaginar que estamos em uma motocicleta num ensolarado dia de calmaria (sem vento real), passeando sem pressa, a vinte quilômetros por hora. Sentiremos em nosso rosto um vento de 20 Km/h no sentido contrário ao de nosso movimento. Se aumentarmos a velocidade da moto, o vento em nosso rosto aumentará na mesma medida.

Vamos imaginar agora, que estamos na mesma moto, no rumo norte, num dia de vento leste. Com a moto parada, este vento, produzido pelos fenomenos naturais, nos atingirá no lado direito da cabeça. À medida que a moto desenvolve velocidade, não sentiremos dois ventos diferentes — um soprando em nossa frente, proveniente do movimento da moto, e outro, gerado pela natureza, nos atingindo pelo lado — mas um vento único, vindo de uma direção entre norte e leste.

Figura 1


Desenhando um paralelogramo com a velocidade e direção do vento induzido (mesma intensidade e sentido oposto à velocidade do barco) e a velocidade e direção do vento real pode-se calcular a direção e intensidade do vento aparente. Na prática, o que acontece a bordo é o contrário disso: o navegador sabe a intensidade e direção do vento aparente, dada por um anemômetro e a velocidade da embarcação — dada pelo velocímetro. Com esses dois dados, ele calcula a intensidade e direção do vento real.

Figura 2


A figura 3 mostra como o vento aparente se posiciona quando o barco veleja com o vento para trás do través da embarcação (empopado). Neste caso ele é mais fraco e, assim como na situação de contravento, se situa mais para a proa do que o vento real.

Figura 3


A figura 4 mostra um exemplo de paralelogramo para uma situação com o vento para tráz do través.

Figura 4


A análise destas situações nos permite fazer duas considerações gerais:
1. O vento aparente é sempre mais para a proa do que o vento real.
2. À medida que o vento real se move para a popa o vento aparente diminui de intensidade.

E compreender alguns apectos práticos do velejar:
A. O ângulo entre bordos é calculado em função do vento real e não em relação ao vento aparente (observado a bordo). Assim, na situação da figura 2 (contravento) este ângulo é de 80º (40º + 40º) e não de 54º (27º + 27º).

Figura 5


Deve-se, portanto, saber onde está o vento real para definir o ponto no qual cambar. A bordo é possível descobrir a direção do vento real aproando momentaneamente para ele ou observando os carneirinhos no mar.

B. Em geral, é bem mais confortável e eficiente velejar a um pequeno ângulo do vento do que diretamente a favor dele (popa raza). Por exemplo: Um veleiro de cruzeiro de 36 pés, com um vento real de 12 nós, deve velejar a uma velocidade de cinco nós em popa raza

Figura 6


Porém, bem melhor seria deixar o vento real entrar a 30º da popa da embarcação (150º da proa), assim, será gerado um vento aparente de 7,5 nós a 55º da popa do veleiro (125º da proa). Nesta situação o barco ficará mais estável e seguro e a velocidade deverá aumentar para seis nós ou mais.

Como é preferível velejar a um ângulo do vento do que na popa rasa, pode ser que o curso navegado não leve a embarcacão diretamente ao seu objetivo, neste caso, será necessário dar jibes. O ângulo de jibe é também medido a partir do vento real, no exemplo acima será de 60º (30º+30º)

Figura 7


C. Quando o vento real aumenta de intensidade (rajada), o vento aparente se desloca para trás. É aconselhável orçar um pouco para compensar esta mudança de direção do vento aparente e evitar que o ângulo de incidência do vento nas velas fique maior do que o desejado, ocasionando um adernamento excessivo e uma diminuição na força avante. Outra possibilidade é folgar um pouco as velas e manter o curso.

Figura 8


D. Quando se veleja com vento a favor, o vento aparente é mais fraco do que o vento real. Isto pode levar a uma subestimação da força do vento. Por exemplo: Um veleiro pode velejar diretamente a favor de um vento real de 16 nós a uma velocidade de aproximadamente nove nós. Nesta situação este veleiro terá sobre suas velas um vento aparente de apenas sete nós (16 - 9) e a força do vento sobre as suas velas será relativamente fraca. Se este veleiro entrar no contravento, sua velocidade irá diminuir e ele irá orçar a uma velocidade de mais ou menos seis nós. O vento aparente contudo aumentará para 21 nós — soma vetorial de (16+6). Pode-se pensar que a força do vento irá triplicar, já que a velocidade do vento aparente triplicou, de 7 para 21. Ledo engano, a força do vento aumenta exponencialmente com o aumento da velocidade. Para um aumento de três vezes na velocidade do vento, a força aumenta o quadrado disso, nove vezes. Isso significa que as velas sofrerão um esforço nove vezes maior na orça do que na popa raza. Nestas condições a maioria dos veleiros de cruzeiro deve diminuir pano (rizar) antes de iniciar o contravento

Figura 9


* Sergio Caetano, formado em geologia, é skipper profissional, proprietário e instrutor da Ilhavela - Escola de Vela Oceânica. www.ilhavela.com.br

Fonte: Revista Náutica, www.nautica.com.br.

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